O problema do desconhecido

Gosto de assistir a programas como Operação Fronteira e Alerta Aeroporto, que mostram o trabalho das autoridades na identificação e captura de pessoas que atuam como “mulas” do tráfico de drogas. É impressionante observar a tecnologia disponível, os rigorosos controles de segurança e as estatísticas de apreensões realizadas em aeroportos e fronteiras. Entretanto, há algo que sempre me chama a atenção: apesar de toda essa estrutura de fiscalização, não conhecemos a verdadeira dimensão do problema. Sabemos quantas pessoas foram capturadas, quantas tentativas foram frustradas e quantas toneladas de drogas foram apreendidas, mas não sabemos quantas conseguiram atravessar os mesmos controles sem serem descobertas.
E existe outro detalhe que merece reflexão: se diariamente ainda existem pessoas sendo capturadas transportando drogas, é porque o tráfico continua encontrando motivos para tentar. Afinal, por trás de cada operação interceptada, existe uma atividade criminosa que continua apostando na possibilidade de sucesso. Conhecemos os números daquilo que foi descoberto, mas desconhecemos a dimensão daquilo que passou despercebido.
Fazendo um paralelo com nossa vida espiritual, encontramos algo semelhante. Podemos reconhecer alguns pecados, abandonar determinados comportamentos e até acreditar que estamos vivendo corretamente, mas ainda existem áreas do nosso coração que não examinamos ou que preferimos não enxergar.
O salmista reconheceu essa limitação humana ao declarar: “Quem pode discernir os próprios erros? Absolve-me dos que me são ocultos.” (Salmos 19:12 | ARA)
O fato de não identificarmos um pecado não significa que ele não exista. Existem motivações, pensamentos, intenções e atitudes que podem estar escondidos até mesmo de nós. Por isso, precisamos pedir a Deus que examine nosso interior e revele aquilo que nossos próprios olhos não conseguem perceber.
Paulo também nos faz um alerta importante: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.” (1 Coríntios 10:12 | ARA). Podemos frequentar a igreja, conhecer a Bíblia, desenvolver atividades ministeriais e ter uma reputação de pessoas comprometidas com Deus. Entretanto, nenhuma dessas coisas deve produzir em nós uma falsa sensação de segurança espiritual. A vigilância não é necessária apenas quando estamos enfrentando uma crise, mas também quando acreditamos estar firmes.
O maior perigo espiritual pode começar justamente quando deixamos de acreditar que precisamos vigiar.
Mas como identificar aquilo que precisa ser tratado? Tiago nos ajuda a compreender que o pecado nem sempre começa com uma atitude visível. Muitas vezes, sua origem está nos desejos que alimentamos em nosso interior: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.” (Tiago 1:14-15 | ACF)
Tiago explica que, muitas vezes, tentamos combater apenas os comportamentos externos, sem enfrentar os desejos que os alimentam. Procuramos eliminar determinadas atitudes, mas preservamos as motivações que continuam produzindo essas mesmas atitudes.
O próprio Jesus ensinou que o problema do ser humano não está apenas naquilo que faz, mas também naquilo que procede de seu coração: “Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem.” (Marcos 7:21-23 | ACF)
Portanto, não basta combater os pecados que conseguimos enxergar. Precisamos permitir que Deus examine também as raízes, os desejos e as intenções que podem estar escondidos em nosso interior. Enquanto não tratarmos as raízes desconhecidas do pecado, continuaremos tentando combater apenas os seus frutos conhecidos.
Que nossa oração não seja apenas para que Deus nos ajude a abandonar os pecados que já reconhecemos, mas também para que revele aqueles que ainda não conseguimos enxergar. Afinal, o desconhecimento de nossas próprias falhas não deve ser motivo de tranquilidade, mas um convite à humildade e ao exame constante do coração.
Oração: Senhor, sonda meu coração e revela tudo aquilo que ainda não consigo enxergar. Livra-me da autoconfiança, transforma minhas motivações e guia-me pelo caminho da tua vontade. Amém.
Versículo do dia: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.” (Salmos 139:23-24 | ACF)
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