Uma história sem final

Existem filmes que parecem terminar sem uma conclusão, não é verdade? Filmes que chegam ao fim e nos obrigam a “imaginar” qual pode ter sido o destino de um ou mais de seus personagens principais. Há quem goste desse tipo de filme e há quem sinta aquele sabor “amargo” de ter passado duas horas diante da tela e, no final, não saber exatamente o que aconteceu.
No filme Náufrago (Cast Away, 2000), Chuck Noland, interpretado por Tom Hanks, sobrevive sozinho durante anos em uma ilha deserta após um acidente de avião, mantendo a esperança de voltar para casa. Quando finalmente retorna, descobre que sua antiga vida mudou completamente. Depois de entregar uma das encomendas que havia preservado na ilha, Chuck chega a uma encruzilhada e fica diante de diferentes caminhos. O filme termina sem revelar qual estrada ele escolherá, nem o que acontecerá com sua vida ou com a mulher que conheceu.
Na Palavra de Deus, encontramos a história de outro náufrago, de quem também não conhecemos o final. O livro de Jonas conta a história de um profeta que recebeu de Deus a missão de pregar em Nínive, mas fugiu porque não queria que aquela cidade fosse perdoada. Depois de ser lançado ao mar e permanecer dentro de um grande peixe, Jonas finalmente obedece, prega aos ninivitas e vê toda a cidade se arrepender.
Porém, em vez de se alegrar, Jonas fica indignado com a misericórdia de Deus e chega a desejar a própria morte. Deus então usa uma planta que cresce e depois seca para ensinar Jonas sobre compaixão. No final do livro, Deus faz uma pergunta ao profeta: “E não hei de eu ter compaixão de Nínive?” — Jonas 4:11. E então, o livro termina.
Não sabemos se Jonas respondeu.
Não sabemos se ele mudou de coração.
Não sabemos se continuou ressentido.
É quase como se a Bíblia tivesse deixado o “último capítulo” da vida interior de Jonas nas mãos do leitor.
Há histórias da Bíblia cujo final não conhecemos plenamente, e Jonas é uma delas. Mas talvez isso seja exatamente o propósito do autor. O livro termina com uma pergunta porque a pergunta de Deus não era apenas para Jonas. Ela também é para nós.
A história de Jonas nos confronta porque é possível obedecer a Deus exteriormente e, ainda assim, ter dificuldade para aceitar aquilo que Deus deseja fazer com outras pessoas. Jonas pregou em Nínive, mas não queria que os ninivitas fossem alcançados pela misericórdia. Ele conhecia o caráter de Deus, mas não queria que a graça de Deus fosse oferecida àqueles que considerava indignos.
E talvez aqui esteja a verdadeira encruzilhada da história. O que fazemos quando a graça de Deus alcança alguém que acreditamos não merecê-la? Ficamos felizes porque um pecador se arrependeu ou ficamos incomodados porque Deus foi misericordioso com alguém que julgávamos indigno?
Jesus contou a parábola do filho pródigo e terminou mostrando um filho mais velho que também precisava decidir o que fazer com a graça oferecida ao irmão. A festa estava acontecendo, o pai havia recebido o filho de volta, mas o irmão mais velho permanecia do lado de fora. Mais uma vez, a questão não era apenas quem havia pecado, mas quem estava disposto a celebrar a graça.
Talvez o livro de Jonas termine sem nos contar o que aconteceu com ele porque Deus quer que cada leitor responda à pergunta que ficou no ar. Eu tenho compaixão das pessoas que Deus quer alcançar? Consigo celebrar quando alguém que errou encontra perdão? Ou, no fundo, acredito que algumas pessoas não deveriam receber a mesma graça que eu recebi?
O filme termina deixando Chuck diante de diferentes estradas. Jonas termina diante de uma pergunta. E nós também chegamos a uma encruzilhada: podemos escolher continuar presos ao ressentimento ou aprender a enxergar as pessoas através da misericórdia de Deus.
Talvez a história de Jonas não tenha um final porque Deus deixou espaço para que cada um de nós escreva sua própria resposta à pergunta: “E não hei de eu ter compaixão?”
Oração: Senhor, livra meu coração do ressentimento e da dificuldade de aceitar tua graça quando ela alcança pessoas que eu considero indignas. Ensina-me a lembrar que eu também sou alcançado pela tua misericórdia e ajuda-me a celebrar quando outros encontram perdão, restauração e salvação. Amém.
Versículo do dia: “Não devo eu ter compaixão de Nínive, a grande cidade, onde vivem mais de 120 mil pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, além de todos os animais?” — Jonas 4:11 | NVT
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