Era você quem deveria ter ido lá fora

Esta reflexão foi escrita por André Daniel Reinke
O final do livro de Juízes apresenta uma história macabra. Centenas de mulheres sofrendo por causa da “honra” dos homens.
Tudo começa com um levita e sua concubina. Eles passaram por uma cidade de Benjamim e foram hospedados na casa de um morador local. Homens da cidade cercaram a casa e, como em Sodoma, queriam o levita para “aquelas coisas”. (Jz 19:11-22)
O dono da casa, para manter a honra do homem hospedado, oferece para aquelas bestas a própria filha virgem e a concubina! Observe que não interveio apenas por causa da lei da hospitalidade… Ele ofereceu a hóspede mulher! (Jz 19:23-24)
Para se livrar, o levita — esse servo do tabernáculo de Deus — jogou a concubina para fora da casa, à mercê dos abomináveis. Ela passou a noite sofrendo “aquelas coisas” e voltou se arrastando para a casa. A porta permaneceu fechada até amanhecer. (Jz 19:25-26)
Finalmente o levita saiu e mandou ela se levantar para seguir viagem. Talvez a tenha cutucado com o pé. Mas não havia mais vida nela. Ele carregou seu corpo para casa no lombo de um jumento. (Jz 19:28)
Então o levita usou o corpo da mulher como prova de um atentado contra a sua honra. Ele não lhe deu sepultura, algo obrigatório aos antigos, mas fez seu corpo em 12 pedaços e espalhou por todo Israel. Para quê? A fim de convocar as tribos a vingarem a afronta feita contra um homem. (Jz 19:29-30)
As tribos exigiram os homens de Gibeá para vingar o ocorrido. A honra dos benjaminitas não permitiu que entregassem seus conterrâneos, e isso começou a guerra entre as tribos.
E Deus nessa história? Incentivou que eles se massacrassem. Isso é julgamento. (Jz 20)
O saldo final foram cidades e famílias inteiras arruinadas. Homens, mulheres, crianças. Todos foram alvo das bestas. Sobraram 600 homens de Benjamim. (Jz 20:46-48)
Então continuou a luta pela honra dos homens de Israel. As tribos haviam jurado que nunca entregariam uma filha para casar com um benjamita. Palavra de homem deve ser cumprida!
Como providenciar esposas e restaurar aquela tribo? (Jz 21:1-3)
As tribos haviam feito outro juramento absurdo: quem não participasse da guerra de vingança seria eliminado. E uma cidade não enviara seus guerreiros…
Problema resolvido! Atacaram a cidade e deixaram viver apenas as meninas virgens.
As 400 adolescentes sobreviventes foram dadas aos benjaminitas. (Jz 21:5-14)
Mas faltaram 200 esposas. Como resolver? Lembraram que havia um festival anual em que meninas virgens adoravam a Deus diante do tabernáculo. Era um “retiro” das adolescentes da igreja. Foram lá e roubaram as que faltavam. (Jz 21:15-21)
E os pais das meninas? Sua honra foi preservada porque não deram as filhas em casamento aos benjaminitas, pois elas foram roubadas… Então ficou resolvido. Todos honrados — menos elas, claro. (Jz 21:22-24)
Para aqueles homens de Israel, a sua palavra de honra valia mais do que a Palavra de Deus. O texto de Juízes é uma forma de denúncia. Não guarda silêncio sobre a perversidade do próprio povo, mas a registra para todos tomarem consciência.
Graças a Deus, essa é apenas parte da grande história da Bíblia.
Jesus apresenta o que o verdadeiro homem, o novo Adão, deve fazer. Ele dá a vida pelos outros, nem que seja da forma mais desonrada possível. Foi o que aconteceu com Ele.
E o benjaminita Paulo explicou para o levita: homem de verdade dá a vida pela esposa. (Ef 5:25-26)
Era você quem deveria ter ido lá fora.
Oração: Senhor Jesus, ensina-nos a abandonar uma honra construída sobre orgulho e egoísmo e a viver o verdadeiro amor, que protege, serve e entrega a própria vida pelo outro. Que o nosso compromisso contigo e com a Tua Palavra seja maior do que qualquer honra que o mundo possa oferecer. Amém.
Versículo do dia: “Maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou a si mesmo por ela, a fim de santificá-la, tendo-a purificado com a lavagem da água, pela palavra.” Efésios 5:25-26
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