A fé do Filho e a fé no Filho

Algo que aprendi nestes sete anos de ministério do Hora de Orar foi amar profundamente a Palavra de Deus. Amo estudá-la, conhecê-la e aprofundá-la em minha vida. Hoje quero compartilhar uma breve reflexão sobre uma sutil, mas importante diferença existente entre duas traduções de Gálatas 2:20.

A versão ACF – Almeida Corrigida Fiel diz: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.”

Já a versão ARA – Almeida Revista e Atualizada traduz o mesmo texto da seguinte forma: “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.”

A resposta curta e objetiva é: não.

A diferença entre “vivo pela fé do Filho de Deus” (ACF) e “vivo pela fé no Filho de Deus” (ARA) está na forma como cada tradução interpreta a expressão grega ἐν πίστει ζῶ τῇ τοῦ υἱοῦ τοῦ θεοῦ (en pistei zō tē tou huiou tou theou). O ponto central está no genitivo τοῦ υἱοῦ τοῦ θεοῦ (“do Filho de Deus”), que, na língua grega, pode ser compreendido de duas maneiras legítimas.

A primeira possibilidade é o chamado genitivo objetivo, significando “fé no Filho de Deus”, ou seja, a fé que o cristão deposita em Cristo. A segunda é o genitivo subjetivo, significando “fé (ou fidelidade) do Filho de Deus”, referindo-se à fidelidade perfeita de Cristo ao cumprir a vontade do Pai, culminando em Sua morte na cruz.

A maioria das traduções modernas, como a ARA, opta pela primeira interpretação, por entendê-la como a mais natural dentro do contexto do Novo Testamento, que frequentemente enfatiza a fé do crente em Cristo. Já a ACF segue uma tradição de tradução mais literal, preservando a construção “fé do Filho de Deus” e deixando ao leitor a responsabilidade de interpretar o sentido do genitivo.

Nos últimos anos, diversos estudiosos têm defendido que Paulo pode ter empregado essa expressão de maneira propositalmente rica, permitindo que ambas as ideias coexistam. O cristão vive pela fé em Cristo, mas essa vida só é possível porque, antes de tudo, foi alcançado pela perfeita fidelidade de Cristo em cumprir plenamente a vontade do Pai.

Assim, longe de serem interpretações excludentes, as duas traduções ressaltam aspectos complementares da mesma verdade. Somos salvos pela fidelidade obediente de Cristo, que foi até a cruz por amor de nós, e vivemos diariamente por meio da nossa fé nEle. A fidelidade de Cristo tornou possível a nossa salvação; a nossa fé em Cristo nos permite desfrutar dessa salvação todos os dias da nossa vida.

Essa riqueza do texto bíblico também nos ensina algo precioso: quanto mais estudamos as Escrituras, mais percebemos sua profundidade. A Palavra de Deus não se contradiz; ela se complementa. Muitas vezes, diferentes traduções não competem entre si, mas iluminam diferentes facetas da mesma verdade revelada por Deus.

Oração: Senhor, obrigado pela riqueza da Tua Palavra. Dá-me um coração que ame as Escrituras, deseje conhecê-las cada vez mais e viva diariamente à luz da verdade que elas revelam. Que eu jamais perca a alegria de estudar a Tua Palavra e que minha fé em Cristo seja fortalecida a cada dia, lembrando-me de que tudo começou pela fidelidade perfeita do Teu Filho. Em nome de Jesus, amém.

Versículo do dia: “Assim já não sou eu quem vive, mas Cristo é quem vive em mim. E esta vida que vivo agora, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se deu a si mesmo por mim”. (Gálatas 2:20 – NTLH)

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